Tuesday, December 05, 2006

Respirar Sem Luz

Tens os olhos fechados, para te veres por dentro,
Dentro da nossa repartida solidão,
E é minha a música que pressinto
No teu suspiro quente de inocente menino,
Na tua calada e mentirosa paixão.


Adormecendo o teu desejo roto,
Deslizas pelas suaves encostas do meu corpo,
Seguro na insegurança dos meus braços,
Vagueias nas dobras de um coração.
E pelos lábios de um doce amargo apetecido
Vens cantando graves silêncios ao meu ouvido,
Enquanto eu toco sem tempo nem embaraços
O pesado abandono em meus abraços,
E o teu leve veludo em minhas mãos.


Neste recanto da noite que o dia não viu,
Perdida e esquecida pelas mãos apertadas
(Receio mutuo de não estremecer),
Em palavras que fogem das bocas caladas
Faces enrugadas do entornado prazer
Que fugaz transforma em divino o pecado,
Perco o medo de me perder.
E mergulho embriagada, na transparência de um rio
Que me derrama a alma de vida e de morte,
Até me perder entre o sul e o norte.
E o prazer reparte-se em gotas de emoção
Que escorrem do nosso corpo até à colcha,
Que cobre como névoa o teu colchão.
Dentro da escuridão de um quarto
Onde o tecto voa
E onde quebra o chão.


E é cansada da fome que saciei,
Enquanto me abandonava ao nosso encontro
Afastando a distância que no futuro entornei,
Que preparo o ventre, aconchegado e pronto,
Ouvindo a inquieta e deslumbrada anunciação
(Restos de uma distante e atraente canção)
Dizer-me compassada, num lento e terno sorrir,
Que um olhar me procura por fim,
E que o vou sentir dentro de mim


(2000)

Monday, November 13, 2006

Reencontro-te no silêncio dos meus pensamentos. Só tu e o silêncio. Nada mais.

Sunday, September 24, 2006

Não me digas "Adeus".
Adeus é palavra para quem não sabe atravessar a eternidade junto a alguém.

Monday, August 28, 2006


A chama... que continua acesa.

Saturday, August 26, 2006

A insónia...

Nunca soube como começar. E nem sei o motivo porque te escrevo, nem como te hei-de contar o que talvez não deva ser convertido em facto concreto. Este é um começo enviesado e prolongado nas duvidas da minha existência. Esta folha é talvez o espelho torto e partido onde te questiono sobre o meu reflexo. Sei apenas dos porquês da minhas reticências.
Porque sempre permaneceste no submundo da espera pelas respostas, e as respostas que te vendem são sempre as mais adequadas mas não cabem nas escolhas que queres para ti. E aqui estou eu, com a chave desse mundo discreto que suplicas aos outros. Só eu sei como é o percurso de regresso, quando a ida não tem ainda origem em qualquer espaço do mundo. Só eu sei onde colocar as malas desalojadas de pensamentos antes de adormecer e sei de cor qual a cor da linha entre o céu e o mar onde te posso encontrar. Sei desencontrar os quadros das memórias e espreitar entre as vigas das janelas que nos separam de lá de fora e de qualquer outro alheio lado de cá. Sei construir torres de contradições que te suportem até a um qualquer fim de mundo, para que vejas sem jamais tocar. Sei decorar os preconceitos com mantos negros, para que os toques sem os olhar. Sei flutuar sobre o suspiro que me escolhe como mensageira deste momento. Sei ordenar-te nesta coreografia de linhas sem prece nem preceito. E a dança desta escrita viajante recomeça.
Escorrego a cada palavra, desligo cada silêncio do momento exacto e volto a liga-lo noutro lugar. Assim troco as voltas da tua vontade, servindo-me dos malabarismos da minha mente para te ludibriar. E sim, consigo demorar-te nesses segredos invisíveis que moram na película transparente dos sonhos, dos espelhos e das fantasias. Torno-me a maior fonte do teu prazer inexistente. A límpida e iluminada forma de nunca te servir para nada. O meio de transporte que nunca chega quando não tens que seguir para lado algum. As linhas escritas como cópias de outros sentimentos, sentidos por outras personagens às quais conheces os sons e a cor e que esqueceste debaixo do tapete longínquo da memória. Torno-me uma vulgar, vacilante e desconhecida ilusão. Torno-me distância perdida entre todas as distâncias. Sou o som sonâmbulo de uma sempre eterna e única música, uma canção repetida.
Depois, solenemente, encho-me de uma velha vergonha pelo que nunca presenciei de ti e escondo-me novamente dentro de algo perfeito e confortável que ainda persista em mim. Só saio à noite, e para te escrever. Só saio com a consciência das vontades. Cresço de mim com esse adubo que fermenta o pensamento e o desentranha das ilusões sempre repetidas. Quero corrigir as formas distantes que constantemente te fogem do olhar e desenhar outros olhos que se dirijam também a mim. Quero-me embalar nessas espirais de outras direcções a perseguir.
Quero, quero e quero e a vontade nada mais faz que alargar o tempo. E o tempo dorme com a paciência enquanto eu aqueço as noite e esqueço-me de esperá-lo pacientemente. E desejo que o tempo também te deseje e desespere. Desejo desarrumar o momento em que te enganei em mim e fingi não te reconhecer. Desejo reconhecer a fonte do desejo que nasce e cresce apenas por te ver.
Este desejo sobe às profundezas do mar, reflexo nos céus e cravados como rochas na mesma e única visão.
Este caminho repete a minha paisagem, certa por não ter direcção e regressar ao sonho que ressoa em mim. Esta carta em começo permanente, quer levar-me sem fim à vista, a um olhar. Não sei como começar, antes de viajar dentro dessa eterna imensidão. Não sei como começar sem antes te encontrar por aqui, nesta morada enraizada entre um pensamento e um coração...

Thursday, August 24, 2006

A procura...

Há já alguns dias que me sento para te escrever e não o consigo. Quero descrever-te pelos contornos da memória que se vai entornando e quero gastar para sempre. Todos os dias me sento e também todos os dias receio desenhar-te na folha em branco por não te poder construir na minha história ou talvez por desejar caminhar num outro conto onde os desejos não existam e os enredos não recuem ao passado. A verdade é que continuo a delirar por ti enquanto procuro uma nova cura para o nosso futuro inacessível.

Friday, August 11, 2006


A razão...

Já se passou demasiado tempo e ainda te continuo a chamar de amor.
Passaram-se anos e continuo desbravando contigo vários caminhos de solidão.
Passaram muitas vidas e tudo o que resta de nós é um caminho enleado que desfazemos timidamente para poder sobreviver.
Vivo sem te ter por aqui mas a cada sopro do tempo engulo-te dentro de mim. Já foste o meu amor imaginado, encontrado, revoltado, apetecido, perdido, resignado, reencontrado,...nunca esquecido. Amor, irmão, amigo, amante, filho. Divina criação. E onde cabe agora a mulher perfeita com quem nunca tiveste a oportunidade de ter nada mais sério? De que modo posso encontrar o teu “todo”que para sempre me deve pertencer? Em que ponto nos tornámos uma só pessoa longe de nós? Sei do que falas, e sabes que te sei. Por muitos momentos realizamos e edificamos o mesmo sentido. Fomos... somos eternos espelhos sem antes nem depois. Reflectidos num simples olhar. Ou na minha imaginação.
Hoje optei por te evitar. Evito o olhar e a presença para evitar não te querer amanhã por perto. Hoje não cabe em mim a perfeição. Não posso evitar querer continuar a viver. Abro a porta a quem me pode amar. Abro a porta a quem me alimenta de dias e tardes para esquecer as noite sem fim. Hoje... por momentos...por enquanto... quero sobreviver para me poder construir sem pedaços. Construir-me por inteiro e não por um meio que nunca se pode concretizar. Não vais perceber. Talvez um dia te poderei dizer. Talvez um dia me poderás dizer como te amar.
Terás sempre outro alguém, algo onde beber esse brilho nos olhos que revejo mesmo em distância. Outro alguém onde te perder. Já curaste as feridas de mim. Já me edificaste na compreensão dos dias iguais uns aos outros. Queres concluir sentimentos, analisar desfechos. Já os consegues fazer sem mim. Já te fizeste parte de mim. Já me conheces melhor do que realizaste. E já tarde passou essa tarde onde me revi mil vezes na espera de uma imagem ou miragem que não chegou. Passou também a tarde em que, esperando, consegui viver-te mais perto, porém, da sombra do que daquela matéria com que se vê a realidade. Passaram, já tarde, as memórias dos momentos em que te desejei e te tive demasiadas vezes, contadas minuciosamente e sem conta. Hoje quero ensurdecer o desejo.... não quero os extremos, quero o sentido pleno do meio da vida que existe também em mim.
Quero poder chorar por outro alguém, quero poder chegar a casa depois de me cruzar contigo em pensamento e não embalar futuros inacessíveis que há muito tempo choram longe sem a minha direcção.
Porque te quero embalar também quando choras e nasci para sorrir com o teu sorriso. Porque se me arranha a alma se o jantar te caiu mal, porque respiro com dificuldade quando soluças sem razão ou te estala o joelho. Porque te quero em sintonia com o mundo. Porque não me quero deixar morrer aos teus olhos. Porque preciso de ti para respirar e existir. Porque são opostos e claros os desejos que me nascem por te amar. Porque te fizeste e eu me fiz vida contigo. Hoje não consigo estar aí. Estás feliz, não quero que me vejas a chorar... Não me quero ver a chorar. Amar-te-ei, ou outro qualquer verbo que queiras nomear, sempre. Ninguém mais o saberá. Nunca disso outro alguém além de nós alguma vez falará.